Musicas Popular por Mário de Andrade em 1929
[...] Uma feita em Fonte Boa, no Amazonas, eu passeava com o filho do prefeito num salão de mata. Saia um canto feminino duma casa. Parei. Era uma gostosura de linha melodica, monotona, lenta, muito pura, absolutamente linda. Me aproximei com a maxima discreção pra não incomodar a cantora, uma tapuia adormentando o filho. O texto que ela cantava, lingua de branco não era. Tão nasal, não desconhecido que imaginei fala de indio. Mas era latim... De tapuio. E o Acalanto não passava do Tantum Ergo, em Cantochão. Uma sílaba me levou pra outra e mais por intuição que realidade pude reconhecer tambem a melodia. A deformação era tamanha que nem de propósito ! Porêm jamais não me esquecerei da comoção de beleza que recebi dos labios da tapuia. O Cantochão vive assim espalhadissimo nos bairros, nas vilas, por aí tudo no interior. Será possivel talvez perceber na liberdade ritmica de certos fraseados do nosso canto, uma influência gregoriana.
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A Influência portuguesa foi a mais vista de todas. Os portugueses fixaram o nosso tonalismo harmonico; nos deram a quadratura estrófica; Provavelmente a síncopa que nos encarregamos de desenvolver ao contacto pererequice ritmica do africano; os instrumento s europeus, a guitarra (violão), a Viola, o Cavaquinho, a Flauta, o Oficleide, o Piano, o grupo do Arcos; um dilúvio de textos; formas poetico-liricas, que nem a Moda, o Acalanto, o Fado (ás vezes dançado); danças que nem a Roda, infantil; danças iberas que nem o Fandango; danças-dramaticas que nem os Reisados (Pastoris, Nau Catarineta), que chegam a ser verdadeiros Autos. Tambem de Portugal nos veio a origem primitiva da dança-dramatica mais nacional, o Bumba-meu-Boi.
E num desproposito de cantigas populares tradicionais ou modernas do Brasil até agora aparecem arabescos melodicos lusitanos ora puros, ora deformados.
O Africano tambem tomou parte vasta na formação do canto popular brasileiro. Foi certamente ao contacto dele que a nossa Ritmica alcançou a variedade prodigiosa que tem, uma das nossas riquezas musicais. A lingua brasileira se enriqueceu duma quantidade de termos sonorosos e mesmo de alguma flexões de sintaxe e de dicção que influenciaram necessariamente a conformação da linha melodica. Até hoje surgem cantos principalmente Maxixes cariocas e numerosos de Congos, em que aparecem palavras africanas. Do diluvio de instrumento que os escravos trouxeram para cá, varios se tornaram de uso brasileiro corrente que nem o Ganzá, o Púita, e o Tabaque ou Atabaque. Instrumento s quasi todos de percussão exclusivamente ritmica, eles se prestam a orgias ritmicas tão dinamicas, tão incisivas, contundente mesmo que fariam inveja a Strawinsky e Vila-Lobos. Tive ocasião de assistir no Carnaval do Recife ao Maracatú, da Nação do Lião Coroado. Era a coisa mais violenta que se pode imaginar. Um tirador das toadas e poucos respondedores coristas estavam com a voz completamente anulada pelas batidas, fortissimo, de 12 bombos, 9 gonguês e 4 ganzás. Tão violento ritmo que eu não o podia suportar. Era obrigado a me afastar de quando em quando pra... por em ordem o movimento de sangue e do respiro. O Landú ou Lundú foi inicialmente uma dança africana, "a mais indecente" diz De Freycinet (" Voyage autour du Monde", 1825). E quasi sempre no texto, "Eu gosto de Negra", Ma Malia", (vide meu "Ensaio" citado),"Mulatinha do Caroço no Pescoço", o Lundú inda guarda memoria da origem africana.
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Parece que a Música foi o derivativo principal que os africanos tiveram no exilio da America. Inundaram o Brasil de cantos monótonos. Os brancos, cuja vida não tinha onde gastar dinheiro (Capistrano de Abreu, "Capítulos de História Colonial") mostravam a riqueza pelo número de escravos. Destes, os que sobravam em casa, eram mandados sós e principalmente aos grupos ganhar pros senhores, fazendo comissões, transportando coisas de cá pra lá nas cidades. Pra uniformisarem o movimento em comum e facilitar assim o transporte dss coisas pesadas, cantavam sempre e "as ruas ressoavam ecoando a bulha das vozes e das cadeias" (Foster; J. Luccock; principe de Wied). Os negros escravos e os mulatos se especialisavam mesmo na Música. Alexandre Calcleugh registra o seguinte anúncio carioca: "Quem quizer comprar hum Escravo proprio para Boliero, que sabe tocar Piano e Marimba e alguma cousa da Musica e com principio de alfaite, derejase á botica da Travessa da Candelaria, canto da rua dos Pescadores, n. 6" ("Travels in South America" I, Londres, 1825). De Freycinet cita Joaquim Manuel, cabra tão cuera no violão que deixava longe qualquer guitarrista europeu. O nosso talvez maior modinheiro do sec. XIX, Xisto Baia era mulato. Por tudo isto é facil de perceber que a influência negra foi decisiva na formação da nossa Música Popular.
Outra influência vasta foi a dos espanhois. Nossa música possui muito espanholismos que nos vieram principalmente por meio das danças hispanoafricanas da America: Habanera e Tango. Estas formas dominaram fortemente aqui na segunda metade do sec. XIX e foram junto com a Polca os estímulos ritmicos e melodicos do Maxixe. Nesse tempo a Habanera se espalhou formidavelmente pela America toda. Eis uma introdução instrumental de Habanera peruana oitocentista que se liga diretamente a Introduções de Maxixes atuais [...]
[...] Bailados populares do brasil, os "Cabocolinho", ainda subsistentes no Nordeste, o instrumento melodico usado é uma flauta. Possuo 2 flauta feitas para executar as musicas dos "Cabocolinhos" do bairro de Cruz de Alma, na Paraíba. Diferente totalmente na entonação. O que quer dizer que a mesma execução realisada na 2 flautas da 2 melodias diferentes!
Por Welton Báthory

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