Hegel, Razão e História


"Hegel/Daí se segue que não pode chegar a nenhuma obra (werke) positiva -- nem às obras (werken) universais da linguagem nem às da realidade, e nem a leis e instituições universais da liberdade consciente, nem aos frutos e às obras (werken) da liberdade querente (wollende). \Fenomenologia do espírito\

   Sendo assim, toda a sua energia tem de ser gasta negativamente. Confrontada com a sociedade existente, com a ancien régime\antigo regime/, a aspiração à liberdade absoluta foi levada a destruir as suas instituições, a nivelar a sua diferenciação. Como, porém, nada pôde produzir para pôr em seu lugar, a liberdade absoluta ficou empacada nesse momento negativo; sua energia só podia ser gasta na destruição continuada.

    Assim, a liberdade universal não pode produzir nenhuma obra nem ato positivo; resta-lhe somente o agir negativo; é apenas a fúria do desvanecer\Fenomenologia do espírito/

Charles Taylor\ Esta é a derivação hegeliana do Terror. O Terror não foi uma consequência acidental das aspirações dos jacobinos e de outros radicais da Revolução Francesa. A vacuidade dessa demanda por "liberdade do vazio", que foge "de todo conteúdo enquanto seria um limite", foi o que vimos, no plano filosófico, na vacuidade do critério kantiano de universalização. Agora, ele eclode no cenário político na recusa fanática de qualquer estrutura diferenciada.  A revolução "tem mesmo a opinião de que quer uma situação positiva, por exemplo, a situação de igualdade universal...", mas de fato ela nada pôde realizar. Porque tal realização

     Levaria logo a uma ordem qualquer, uma determinação particular tanto da organização objetiva que chega, para essa liberdade negativa, sua autoconsciência. Assim, o que ela opina querer somente pode ser, por si, uma representação abstrata e a efetivação dessa apenas por ser fúria da destruição. \Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito ou Direito Natural e Ciência do Estado em Compêndio/

Mas o que ela pode destruir quando todo o regime está em ruínas? A respostas é: a si mesma, as suas próprias crianças. Porque a aspiração à participação total e completa de fato é rigorosamente impossível. Na realidade, algum grupo tem de tocar o espetáculo, tem de ser o governo. Esse grupo é realmente uma facção. Porém, ele não pode admitir isso, porque solaparia a sua legitimidade. Pelo contrário, ela alega ser a corporificação da vontade universal. Todas as demais facções são tratadas como criminosas; e só podem ser isso, visto que procuram evitar e contrariar a vontade universal. Elas procuram separar-se da participação universal e total. Elas se estabelecem como vontades privdas e por isso têm de ser aniquiladas.

Porém, não é de fato necessário participar de uma facção. Uma vez que o conceito básico da legitimidade é a vontade universal, até aquele cujas vontades são hostis e refratárias, agindo ou não no sentido de opor-se ao governo revolucionário, são inimigos da liberdade e do povo. Em tempos de estresse e crise, é preciso dar um jeito nesses também. Porém, sendo obviamente contrária, não se pode comprovar a má vontade do mesmo modo como a atividade contrarevolucionária. Se quisermos atingir todos os inimigos da vontade tanto quanto os da ação, temos de proceder na base da suspeita racional da parte dos patriotas.

[...]

Nessas passagens proféticas, Hegel delineia o fenômeno moderno do Terror político, que é bem mais asquerosamente familiar para nós do que para as pessoas da sua época: um terror que descarta os "inimigos do povo" em nome de uma vontade real que é definidora da humanidade; um terror, portanto, que se expande para além dos oponentes ativos engolfando os suspeitos. Isso por si só não é novo. A corte de qualquer tirano sempre conheceu a execução de pessoas por suspeita. Porém, no terror político moderno a suspeita não mais se baseia em qualquer cálculo de probabilidade de alguma ação hostil. Ela se expande para além disso, visando punir a vontade refratária ou simplesmente a vontade indiferente em si, porque esta é a essência do crime contra a humanidade: não fazer parte da sua marcha avante. E com isso as vítimas são expulsas das fileiras da humanidade de modo a poderem ser tratadas como insetos. Desse modo, nações altamente civilizadas suplantaram as piores barbaridades de Genghis Khan e Átila. E a perversão dessa ideologia da vontade coletiva mediante a sua mistura com o racismo ultrapassou toda a anterior criminalidade humana."

Razão e História (Hegel de Charles Taylor)

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